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A Argentina está tirando o atraso de seus empreendedores

As reformas do governo do presidente argentino, Mauricio Macri, começam a dar resultado e estão simplificando a vida dos empreendedores no país

Escritório da aceleradora de startups Wayra, em Buenos Aires: o número de novas empresas abertas na capital argentina duplicou | Divulgação /

Escritório da aceleradora de startups Wayra, em Buenos Aires: o número de novas empresas abertas na capital argentina duplicou | Divulgação /  (/)

Mercado Livre,  OLX e Decolar são sites de comércio eletrônico que fazem parte do dia a dia dos consumidores brasileiros. Os três têm algo em comum: foram criados na Argentina e tornaram-se grandes empresas do setor de tecnologia. Não é de hoje que o país vizinho chama a atenção pelo dinamismo de suas startups. Isso ocorre por causa de uma combinação de criatividade com resiliência diante dos problemas econômicos e das frequentes crises do país, gosto pela novidade e ensino de boa qualidade. Mas faltava um ingrediente: um governo que criasse um ambiente favorável aos negócios.

Não foi assim nos 12 anos de domínio do casal Néstor e Cristina Kirchner, entre 2003 e 2015. Ao contrário, com seu populismo de esquerda hostil à iniciativa privada e à economia de mercado, eles exigiram ainda mais do instinto de sobrevivência dos empreendedores argentinos. Agora, pouco mais de dois anos depois da chegada do engenheiro e empresário Mauricio Macri à Presidência do país, as coisas estão mudando. A economia deve crescer cerca de 3% neste ano, os investimentos voltaram a subir. A inflação, embora alta, está sendo controlada aos poucos — e os argentinos puderam confiar de novo nesses índices, antes maquiados.

O resultado é que os empreendedores estão mais animados. O índice de confiança empresarial das pequenas e médias empresas atingiu o maior nível dos últimos 11 anos. A facilidade das empresas para fazer negócios no país também melhorou. O novo ambiente tem relação não apenas com as políticas macroeconômicas como também com as reformas para simplificar a vida dos empresários.

Um exemplo é a Lei de Empreendedores, aprovada pelo Congresso logo após a posse de Macri. A legislação simplificou  o processo de abertura de pequenas e médias empresas — que, afinal, é como começa a maioria dos negócios. Abrir uma empresa na Argentina costumava levar de 20 a 30 dias. Agora, o procedimento é feito pela internet. Em apenas 24 horas, o empresário consegue tirar um CNPJ (que na Argentina se chama Cuit) e abrir uma conta bancária para pessoa jurídica. “A lei foi muito bem recebida por empreendedores e startups, e fomenta o desenvolvimento de distintas atividades produtivas em todas as províncias do país”, diz o brasileiro Claudio Borsa, vice-presidente do Banco Patagonia, que tem as pequenas e médias empresas entre seus correntistas e tomadores de empréstimos.

A facilidade contrasta com a realidade brasileira. Aqui, a abertura de empresas leva, em média, 100 dias, segundo dados do Banco Mundial, mas uma iniciativa da prefeitura de São Paulo vem reduzindo o tempo na capital paulista. Hoje, o processo dura, em média, cinco dias.

Na Argentina, a nova legislação trouxe também outras mudanças importantes. Antes, era necessário ter sócios para abrir uma empresa, o que foi abolido. Agora, assim como no Brasil, é possível ter microempresas individuais — um avanço importante para os profissionais liberais ou pequenos comerciantes. Outra novidade da lei é a possibilidade de as empresas emitirem nota fiscal somente depois de receber o pagamento do cliente. Isso é primordial porque, muitas vezes, os clientes pedem prazos de 60 a 120 dias para pagar. Quando o empresário emite a nota fiscal, tem de pagar o imposto sobre valor agregado, o IVA, equivalente ao ICMS, o que pesa no bolso. “Com o novo sistema, o empresário só paga o imposto quando de fato recebe o pagamento. Isso libera muito capital de giro”, diz Sebastián Brie, professor de inovação e empreendedorismo na Universidade Tecnológica Nacional, uma das principais do país.

As facilidades criaram um boom de abertura de empresas. Só na capital Buenos Aires estão sendo abertas aproximadamente 100 pequenas e médias empresas por semana, quase o dobro da média antes de a nova lei ser aprovada. O bom momento para as PMEs na Argentina tem ajudado gente como o empreendedor Julián Suárez, fundador de um aplicativo de pagamentos digitais chamado Ecopago, que vem atraindo clientes, entre comerciantes e consumidores. O software faz a intermediação dos pagamentos de faturas e cobranças e evita que os usuários tenham de pagar um imposto sobre operações financeiras, chamado Sircreb.

Hoje, o aplicativo tem cerca de 10 000 usuários e um faturamento anual de 3,5 milhões de dólares, em expansão. Para Suárez, os problemas cotidianos enfrentados pelos argentinos são um incentivo para que os empreendedores pensem em projetos para resolvê-los. “Há muita inovação e agora o governo está ajudando, mas falta ainda o respaldo financeiro”, diz Suárez, que colocou 150 000 dólares do próprio bolso na Ecopago depois de vender  uma plataforma online de reclamações do consumidor, também criada por ele.

O presidente Mauricio Macri, da Argentina: reformas melhoraram o ambiente de negócios | Christopher Goodney/Getty Images

Nem aí para os riscos

Uma das explicações para o espírito empreendedor dos argentinos é sua cultura menos avessa aos riscos. Os argentinos desafiam mais o statu quo e se resignam menos diante de situações difíceis em comparação com outros povos, como os brasileiros. É o que mostra o Índice de Distância do Poder. Elaborado com base nas teorias do antropólogo de negócios holandês Geert Hofstede, o indicador mede quanto os membros de uma organização ou país aceitam que o poder seja distribuído de forma desigual. O índice vai de 1 a 120. Quanto mais alto, mais elevada a resignação, e vice-versa. Na Alemanha e no Reino Unido, o índice é de 35. Nos Estados Unidos, 40. Na Argentina, 49 — a melhor colocação entre os países da América do Sul. Já a nota do Brasil é 69. Isso significa que os argentinos têm menos medo de falhar do que os brasileiros.

Cair e levantar faz parte da história do engenheiro de sistemas Guibert Englebienne, um dos quatro fundadores da desenvolvedora de software Globant. Foi sua sétima empresa. As seis anteriores não deslancharam. “Sou um fundador em série”, diz ele, que também é presidente na Argentina da Endeavor, rede mundial de promoção do empreendedorismo. A Globant foi criada em 2003, após a chamada Grande Depressão da Argentina (1998-2002). Os fundadores repararam que boa parte da tecnologia consumida no mundo era produzida por países periféricos, como Índia, Canadá, Israel e Irlanda. Acreditaram que a Argentina poderia se tornar um deles, atendendo o Brasil e o México, que importavam muita tecnologia. Inicialmente, pensaram que o mercado da empresa estava na vizinhança. Estavam errados.

Hoje, 90% dos clientes estão nos Estados Unidos e na Europa, e a Globant atingiu em 2017 um faturamento de 413 milhões de dólares, 28% mais do que no ano anterior. Para Englebienne, o que diferencia os argentinos é o fato de terem aprendido com as muitas crises que enfrentaram. Ser um mercado pequeno também ajuda, pois induz os empreendedores a olhar para fora. “O argentino é muito oportunista e se vira depressa”, diz. Basta que o governo continue não atrapalhando.

Exame.com