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Cultivando imagem ‘gringa’, marca brasileira John John faz sucesso entre jovens

José Sávio Rodrigues, 20, mudou-se há poucos meses para Cidade Tiradentes, bairro da zona leste de São Paulo, e logo descobriu o segredo dos caras mais populares para conquistar meninas: um boné com escrito em letras fluorescentes.

“Elas adoram quando eu uso [o boné]”, diz José, que combinava o verde limão do nome John John costurado no acessório com a cor da borracha do aparelho dos dentes. “O boné é falsificado, moço. Mas ninguém se importa com isso, não. Todo mundo usa.”

José Sávio é um dos muitos fãs da grife de “moda jeans” John John Denim, que faz sucesso entre jovens de diferentes classes sociais. E também um dos que, usando peças originais ou cópias, acreditam que a grife é estrangeira.bone-john-john-oncinharosapreto-frete-gratis_MLB-O-4714159845_072013

“Vi  [ator] Zac Efron usando [a marca] numa foto, achei legal e comprei logo as camisetas”, diz o estudante Felipe Kinoshiro, 19.

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Em frente a uma boate frequentada pela classe média alta de São Paulo, Felipe usava uma blusa de gola “V” com o nome da grife gravado em letras garrafais. Ele só descobriu que a marca era brasileira quando foi morar nos Estados Unidos. “Achava que lá encontraria as roupas mais em conta, mas, pesquisando na internet, descobri que a grife era do Brasil.”

O PARAÍSO É AQUI

O erro é comum e quase induzido. Um dos maiores ativos da etiqueta, criada há oito anos pelo empresário paulista João Foltran, 43, é a imagem de grife internacional, cultivada tanto no nome em inglês quanto nas campanhas publicitárias estreladas por celebridades estrangeiras.

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Além de Zac Efron (“High School Musical”), a modelo russa Irina Shayk, namorada do jogador de futebol português Cristiano Ronaldo, também já estampou os catálogos da marca.

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Os nomes próprios repetidos que batizam a grife nada têm a ver com o apelido John John de John F. Kennedy Jr. (1960-1999), filho do ex-presidente americano John F. Kennedy (1917-1963). O nome duplicado também era o apelido de João Foltran.

No lançamento da coleção de inverno 2014, o ator e cantor Chay Suede levou uma fila de adolescentes para a porta da John John da rua Oscar Freire, nos Jardins, região nobre de São Paulo.

Amanda Silva, 13, era a primeira da fila. “Conhece a John John?”, pergunto. “Muito. Adoro porque tem uma qualidade de bonés e camisetas que o Brasil não tem capacidade de oferecer”, diz a garota. “Sabia que a marca é brasileira?”, retruco. Os amigos de Amanda dão risada, não acreditando no repórter.

A marca é construída da cabeça aos pés em língua inglesa: da razão social, Foose Cool Jeans (empresa de Foltran que era dona da John John antes de ser vendida, em 2011, para o grupo brasileiro de moda Restoque), ao slogan, “Made in Heaven” (feito no paraíso), impresso nas peças.

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O paraíso onde a matéria-prima da grife é feita fica a 120 km de São Paulo, na cidade de Tietê, na lavanderia de jeans da família de João Foltran. Foi lá que ele começou a carreira. Quando criou a grife, João fornecia peças para lojas como Animale e Carmim e chegou a comandar a produção de jeans da multimarcas Daslu.

Quando vendeu a marca para a Restoque (dona de grifes como Le Lis Blanc, Bo.Bô e Rosa Chá) por R$ 29,1 milhões, João estipulou no contrato que a lavanderia de sua família, a Kennelan (com dois “n”, assim como a família Kennedy), deveria continuar a abastecer a John John com seus jeans.

O processo de lavagem da Kennelan é o que garante o aspecto puído e “fashion” do produto, considerado um jeans “premium” no Brasil -as calças custam de R$ 398 e R$ 598.

Hoje, a marca tem 56 lojas próprias. Nas quatro visitadas pela Serafina, nenhuma exibia na vitrine o desejado -e “hit” da pirataria- boné John John. Desde que foi vendida, a grife passou a investir em produtos de “valor agregado”, como uma linha de cosméticos e roupas elaboradas com tecidos nobres.

No shopping Higienópolis, os chapéus ficam guardados numa gaveta. Custam de R$ 139 a R$ 189. Na banca de revistas do seu Edmilson, próxima à Galeria do Rock, no centro de São Paulo, uma falsificação com estampa de onça e o nome da marca costurado sai por R$ 20.

“Se quiser, posso mandar trazer em cores diferentes. Hoje, acabou tudo porque vende muito rápido”, diz o vendedor da banca, que afirma encomendar uma dúzia de cópias de bonés John John toda semana.

FÓRMULA

O Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade não inclui a John John em sua lista de marcas nacionais mais pirateadas, que inclui grifes como a de chinelos Havaianas, a de camisas Dudalina e a de óculos Mormaii.

“Você pediu para saber as marcas brasileiras, não é?”, questionou um porta-voz do FNCP, antes de ser informado pela reportagem de que a grife era nacional. “O layout deles é idêntico ao das marcas internacionais. Curioso isso. Ninguém da marca nos procurou para nenhuma ação.” A Restoque afirma que nunca acionou a polícia ou a Receita para ações contra a pirataria.

A fórmula do sucesso de João Foltran é a mesma de grifes nacionais que marcaram os anos 1980 e 1990, como a Zoomp, de Renato Kherlakian, e a Forum, de Tufi Duek: logos e frases em inglês, apelo jovem e uma moda sem pretensão de lançar tendências.

Depois de vender a John John, Foltran passou a trabalhar nos bastidores da empresa. Hoje, ele é apenas um dos estilistas da equipe e por isso não fala com a imprensa (procurado pela reportagem, não respondeu aos diversos pedidos de entrevista feitos durante um mês).

Cabeleireiro e maquiador, Carlos Cesário, 34, não sabe e nem se importa com a origem da marca. “Não me aprofundo nessas coisas. O importante é que a grife se destaca. Vejo jovens e idosos usando. É bem democrática mesmo. Acho que as pessoas gostam dela porque é de fora, por ser inglesa. É inglesa, né?”

 

Folha de São Paulo – Serafina