144 Visualizações |  Curtir

Entenda os investimentos dos sauditas que levaram Carille, Otero e querem mais

Fatores econômicos e políticos explicam os altos valores desembolsados pelos árabes, que prometem fazer um “estrago” na janela – mas não devem ser comparados à China .

frase é de Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, referindo-se ao grande investimento feito pelo futebol saudita para levar o técnico Fábio Carille. Alguns dias se passaram, e o ímpeto dos árabes chegou a Minas Gerais – mais especificamente ao Atlético-MG. Róger Guedes tem proposta em mãosOtero foi contratado pelo Al Wehda (clube de Carille). Será a Arábia Saudita, de fato, a nova China? Não é para tanto, mas os sauditas devem, sim, investir bastante nesta janela de transferências. O GloboEsporte.com explica os motivos.

 

Governo saudita quer fortalecer o futebol local e está de olho no mercado brasileiro (Foto: Divulgação/Al-Hilal)

Governo saudita quer fortalecer o futebol local e está de olho no mercado brasileiro (Foto: Divulgação/Al-Hilal)

Antes de tudo, é importante explicar de onde vem o dinheiro. A realidade é que a Arábia Saudita – país riquíssimo, produtor de petróleo – sempre teve muita capacidade de investimento, mas que era feito, em inúmeros casos, de forma equivocada e descontrolada.

O mercado petrolífero internacional é muito instável. Os preços do barril são alterados com frequência e sofrem interferência do mundo inteiro. O que acontecia, até pouco tempo, na Arábia Saudita era uma “empolgação” que, geralmente, tinha maus resultados. Quando o mercado estava em alta, os investimentos eram imensos, as contratações eram muitas, os salários astronômicos. Na queda do mercado do petróleo, o futebol sofria. A Arábia Saudita ficou famosa por dar “calote” em muita gente, e vários clubes chegaram a ser punidos e proibidos pela Fifa de disputar algumas competições.

Otero está a caminho do Al Wehda, clube de Carille na Arábia Saudita (Foto: Pedro Souza/ Atlético-MG)

Otero está a caminho do Al Wehda, clube de Carille na Arábia Saudita (Foto: Pedro Souza/ Atlético-MG)

O panorama começou a mudar quando o atual príncipe herdeiro assumiu o controle do país, no meio de 2017. Na prática, é ele – Mohammad bin Salman – o maior governante saudita. O país funciona em um regime monárquico, mas o rei é uma figura mais simbólica. O “Crown Prince” – como é chamado internacionalmente – implantou um programa na Arábia Saudita denominado “Visão 2030”. A ideia é promover uma transformação econômica e social no país.

Bin Salman quer tornar a Arábia Saudita menos “dependente” do petróleo. Quer, portanto, investir em outros mercados, como a indústria de serviços, cultura, turismo e esporte. O futebol é o esporte mais popular no país e já recebe – e vai receber ainda mais – boa parte do fluxo de investimento. A abertura ao mercado internacional também é um objetivo do programa.

Entenda melhor o investimento
A partir daí, algumas questões precisam ser mencionadas para que se entenda os altos investimentos no futebol – especialmente o brasileiro.
O povo saudita é muito fã do futebol brasileiro. Rivellino foi o primeiro grande ídolo nacional a atuar por lá – defendeu o Al Hilal entre 1978 e 1981. De lá para cá, vários brasileiros tiveram boas passagens na Arábia. Querem manter a tradição.
Houve um aumento no número permitido de estrangeiros por clube na liga saudita. Eram três, agora são sete (seis de linha e um goleiro). Os clubes têm, portanto, uma margem maior para contratar estrangeiros.
O príncipe herdeiro saudita deu a um homem poder enorme para investir e resolver as situações do futebol local. Trata-se de Turki bin Abdulmohsen Al-Sheikh, o ministro responsável por levar Fábio Carille ao Al Wehda. A realidade é que a receita para a contratação – assim como no caso de Otero – vem do governo, dos investimentos públicos. O Al Wehda não é um clube grande e disputava, ano passado, a segunda divisão saudita. A gestão de bin Salman e Turki quer investir, sim, mas com responsabilidade. A ideia é impactar o mercado internacional, chamar atenção e livrar o país da imagem de “caloteiro” – que atrapalha a Arábia Saudita também politicamente.
Dentro do propósito de profissionalizar o futebol, vários dirigentes sauditas ligados a casos de corrupção foram presos. O “Crown Prince” quer resolver o problema que afetava o esporte local: má gestão. O dinheiro existe e sempre existiu. A questão é que, agora, a “promessa” é de um melhor uso.
Outra situação que precisa ser destacada é a rivalidade existente entre a Arábia Saudita e outros países do Oriente Médio. O Catar tem investido muito no futebol e vai receber, inclusive, a Copa do Mundo 2022. Os sauditas dão os primeiros passos para tentar rivalizar com o país – que já é adversário político e econômico. “Bater de frente” com os Emirados Árabes também é um objetivo.

Ministro Turki com Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Divulgação)

Ministro Turki com Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Divulgação)

Não é possível, pelo menos por enquanto, falar em “nova China”. Apesar do ímpeto saudita, o fluxo do mercado, os valores e a relevância da liga ainda são muito distintos. De qualquer maneira, é bom abrir os olhos. Os árabes estão mirando o futebol brasileiro e podem aparecer com mais propostas.

“Nunca tinha visto isso”

O GloboEsporte.com conversou com o meia Carlos Eduardo, que, no Brasil, passou por Desportivo Brasil, Ituano, Fluminense e Grêmio Prudente. Ele joga no Al Hilal há três anos e é ídolo da torcida. Contou um pouco da vida por lá e da expectativa pela “empolgação árabe” no mercado de transferências.

– A vida aqui na Arábia Saudita é normal. Vivo em um condomínio de estrangeiros. É tranquilo, estou há três anos aqui, vivo muito bem. Foi uma decisão boa para mim, para resolver minha vida financeiramente. Acabei me surpreendendo com o campeonato. Existe pressão, os torcedores são fanáticos, os jogos têm casa cheia. Foi uma boa decisão para minha carreira. Jogando aqui, muitas portas foram abertas em outros clubes. Já tive propostas da Europa e do Brasil, de clubes grandes. Não é aquilo de vir para cá e ficar sumido. Apareceram várias coisas enquanto estou aqui – disse sobre a carreira e a vida na Arábia.

Carlos Eduardo é um dos destaques do Al-Hilal (Foto: Divulgação Al-Hilal)

Carlos Eduardo é um dos destaques do Al-Hilal (Foto: Divulgação Al-Hilal)

– Os clubes (sauditas) vão pesado. Os investimentos que os clubes estão fazendo são imensos. Desde quando cheguei, nunca tinha visto isso. Falaram que teriam muitos recursos para investir este ano. Desde quando cheguei, o investimento é grande, mas agora estão falando em investimento maior ainda. Espero que de fato aconteça para deixar o campeonato mais forte, equilibrado e com jogadores de nome. É importante para a liga – concluiu, sobre a “empolgação” saudita no mercado.

GloboEsporte.com