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Frustrações como a de Karius são comuns e devem ser usadas para voltar ao topo, dizem especialistas

Goleiro do Liverpool se tornou vilão após falhas na final da Liga dos Campeões

Abatido, Karius deixa o campo do Estádio Olímpico de Kiev – KAI PFAFFENBACH / REUTERS
  • O caminho para chegar novamente ao topo, com honrarias de um campeão e reconhecimento mundial, ficou mais longo para o goleiro alemão Loris Karius, do Liverpool. Suas duas falhas na final Liga dos Campeões, há uma semana, sacramentaram a vitória do Real Madrid e foram acompanhadas pelo planeta todo. Na mesma hora e também nos dias seguintes, ele se tornou um vilão e, além das críticas no noticiário esportivo mundial, foi difamado e ameaçado nas redes sociais. Mas, se há um ponto positivo nessa história, segundo a psicóloga Alessandra Dutra, do Comitê Olímpico do Brasil (COB), é que a redenção pode ser gloriosa, digna de enredo de filme. Ela afirma que os erros e decepções são comuns no esporte. E a chave é transformá-los em combustível para a volta por cima.

Caso Karius — que está de férias, já que não foi convocado pela Alemanha para a Copa — permaneça no Liverpool, pode jogar novamente em 22 de julho, na estreia da Champions Cup, na pré-temporada europeia.

— Essa dor vai arder por algum tempo. Mas, com um trabalho de conscientização, vai passar. Se souber canalizá-la para que seja o combustível para a recuperação, quando um título importante chegar, a felicidade será mais forte. O caminho até a glória aumentou. Se for atingida, será o êxtase — analisa Alessandra, que também citou a infelicidade do lateral Mantuan, do Corinthians, que no último domingo falhou contra o Internacional pelo Brasileiro, levando o rival à vitória, e saiu chorando de campo.

Reviravoltas são próprias do esporte. Guardadas as devidas proporções, a psicóloga lembra da derrota da seleção brasileira feminina de handebol, com a qual trabalhou diretamente, nas quartas de final da Olimpíada de Londres, em 2012. O Brasil comandava a partida contra a então campeã mundial, olímpica e europeia, a Noruega, tinha seis gols de vantagem, mas acabou eliminada em virada épica. Segundo ela, a dor das jogadoras foi imensa. Em 2013, o Brasil conquistou o título mundial inédito para as Américas.

— Valeu a pena aquela derrota. Elas deram a vida para dar a volta por cima — constata.

DEPRESSÃO RECORRENTE

Alessandra diz que a cobrança pessoal pode ser destruidora, independentemente da profissão. No esporte de alto nível, é invariavelmente cruel . Para ela, o goleiro do Liverpool ficará marcado como o 7 a 1 sofrido pelo Brasil na Copa do Mundo, em casa, para a Alemanha.

Na despedida dos gramados, quatro anos depois, o goleiro Júlio César disse que ainda doía a lembrança do placar. Falou ainda que sabia que seria lembrado para sempre pelo episódio, apesar da carreira vitoriosa:

— Atletas deste nível já se cobram demais. Eles não se preparam para o erro. A preparação é para o acerto, o desempenho. Por isso, sofrem de depressão recorrente. E a acolhida dos colegas e da família é importante. A lembrança do caminho percorrido até o alto nível deve ser usada neste processo.

O coach Giuliano Milan, que já atendeu a vários atletas de elite, do automobilismo ao futebol, acredita que faltaram ferramentas ao goleiro alemão para saber lidar com o primeiro revés. Explica que as adversidades podem ser resultado de erro do atleta, de alguém da equipe ou ainda de situações externas. E que o trabalho de coaching serve justamente para evitar atropelos, estragos.

— O coaching é um trabalho com o atleta saudável. Quem está muito abalado, primeiro, terá de se tratar, com psicólogo ou psiquiatra. Só depois poderá trabalhar as ferramentas que lhe ajudarão em casos de adversidade. Errar no esporte é comum. É preciso evitar a sequência de erros, não se desestabilizar. Quando isso acontece, o atleta deixa o alto nível e volta a ser um atleta trivial — opina Milan, que ensina: — Estar estabilizado é estar bem, confiante, concentrado e positivo.

ASSUMIR FRAGILIDADES

Para João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte e presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte (CEPPE), o futebol, em si, é demasiadamente cruel. Por não conseguir reconhecer uma eventual fragilidade de um atleta, no que se refere ao campo emocional e psicológico, a cultura deste esporte ainda é muito machista.

— Falta empatia no mundo do futebol. A capitalização ou dinastia do futebol empresa transformou o ser humano que entra em campo em uma máquina. O lado humano do jogador passou a ser sumariamente desvalorizado. Isso se junta a uma cultura do futebol muito machista. Falar em psicologia no futebol significa assumir uma fragilidade absolutamente amedrontadora — opina Cozac.

Para ele, a frustração é a mesma independentemente de se tratar de um garoto em início de carreira, em um clube como o Corinthians, ou de fazer parte de uma equipe mundialmente famosa em uma final de um dos eventos mais aguardados do planeta.

— Seja em um grande campeonato ou em uma partida, os atletas sentem de forma igual. O que vai diferenciar um do outro é a capacidade de resiliência. O goleiro do Liverpool, eventualmente, pode ter uma resiliência maior do que o lateral do Corinthians por conta da experiência — acredita Cozac, referindo-se ao episódio do Brasileiro no último final de semana.

Murilo Toledo Calafange, secretário-executivo da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp), psicólogo esportivo nas categorias de base do Sport Club Recife, concorda com Cozac. Diz que salário ou experiência não determina o tamanho da dor de uma decepção. Todos são seres humanos.

— Até o goleiro de um grande time internacional chorou — observa Calafange, que elogia o apoio dos jogadores do Corinthians, no caso de Mantuan. — Sabem que é um jovem talento e o apoio ao final do jogo foi algo importante para não deixá-lo mais abatido.

GE